Uma jornada histórica pelos métodos de interpretação bíblica adotados pelos primeiros cristãos, desde a Escola de Alexandria até a contribuição dos Pais Latinos como Agostinho e Jerônimo.
Após a morte dos apóstolos, inicia-se a chamada era pós-apostólica, que vai do século I até o século IV, época dos grandes concílios ecumênicos. Neste período, a Igreja de Cristo era liderada por pastores e bispos conhecidos como "Pais da Igreja". Foi uma época de intensos debates teológicos sobre questões doutrinárias vitais para a sobrevivência da Igreja.
Os Pais da Igreja procuravam entender a verdade de Deus examinando as Escrituras. Debates vigorosos aconteceram quanto ao sentido exato das palavras dos apóstolos e dos profetas. Uma das questões hermenêuticas centrais era como a Igreja poderia interpretar as profecias, instituições, personagens e eventos do Antigo Testamento de forma a refletir a Cristo.
Duas linhas nítidas e diferentes de interpretação surgem nessa época. A primeira, mais alegórica, está relacionada com a cidade de Alexandria. A outra, que surge depois em Antioquia em reação à primeira, é mais voltada para o sentido literal do texto bíblico. Neste estudo, abordaremos a interpretação alegórica de Alexandria e a reação literalista de Antioquia, concluindo com a contribuição dos Pais Latinos.
No período pós-apostólico, a Igreja enfrentava desafios teológicos e precisava interpretar as Escrituras de forma a defender a fé cristã. A cidade de Alexandria, no Egito, tornou-se um centro de estudos teológicos.
O sistema interpretativo de Alexandria tem suas raízes em dois filósofos gregos:
Filo foi um judeu de Alexandria influenciado pelo platonismo. Ele dedicou sua vida a reconciliar o ensino de Moisés com as idéias de Platão, interpretando as Escrituras alegoricamente.
Quando o Evangelho alcançou Alexandria, uma forte comunidade floresceu. Líderes como Barnabé (c. 150 d.C.) e Pantenus (fundador da escola) adotaram a interpretação alegórica.
Barnabé interpretou o número 318 (os homens de Abraão) como uma profecia de Cristo. Ele argumentou que no alfabeto grego, o número 18 correspondia às letras ΙΗ (as duas primeiras letras de Jesus - ΙΗΣΟΥΣ) e o número 300 correspondia à letra Τ (a cruz). Para Barnabé, Deus havia revelado Jesus e a cruz neste número.
Orígenes é a figura mais importante da Escola de Alexandria. Ele foi um estudioso muito respeitado e provavelmente o mais erudito de sua época. Sua abordagem pode ser resumida em alguns pontos essenciais:
Orígenes influenciou muitos Pais da Igreja. Embora tivesse um alto apreço pelas Escrituras e reconhecesse Cristo nas Escrituras do Antigo Testamento, defendeu um sistema de interpretação que diminuía o caráter histórico de algumas passagens e não dispunha de controles adequados contra o subjetivismo.
O tipo de interpretação "espiritualizante" que prevalece em muitas igrejas evangélicas hoje segue o mesmo caminho de Alexandria. Em termos práticos, Alexandria nos ensina a ter cautela com a idéia de que a verdade da Bíblia só pode ser alcançada por "espirituais" que tenham acesso privilegiado a um conhecimento que está além do sentido simples, claro e evidente das Escrituras.
A Escola de Antioquia, surgida na Síria, foi uma reação ao método alegórico de Alexandria. Ela se caracterizava por uma abordagem mais voltada para o sentido literal do texto bíblico, uma abordagem que podemos chamar de "gramático-histórica".
Luciano foi um teólogo cristão que deu origem a uma tradição de estudos bíblicos conhecida pela erudição e conhecimento das línguas originais. Ele fundou em Antioquia uma escola de estudos bíblicos em oposição consciente ao método alegórico de Alexandria.
Teodoro de Mopsuéstia seguiu rigidamente os princípios de Antioquia. Para ele, uma passagem no Antigo Testamento só pode ser considerada messiânica se for usada como tal no Novo Testamento. Meras alusões não são suficientes.
Embora a escola de Antioquia tenha adotado uma leitura das Escrituras que pode ser chamada de "gramático-histórica", ela não prevaleceu na Igreja Cristã. Uma das razões foi que alguns líderes heréticos condenados pelos concílios ecumênicos eram seguidores do método de Antioquia (por exemplo, Nestório, condenado por suas visões sobre a natureza de Cristo).
A escola de Antioquia nos ensina duas coisas importantes: (1) O melhor caminho para evitar a subjetividade descontrolada de uma interpretação alegorista é nos atermos ao texto das Escrituras, ao seu sentido simples e evidente. (2) Precisamos cuidar para não cair no extremo de nos tornarmos tão presos à busca do que o texto significou no passado que esqueçamos de perguntar o que ele significa no presente.
Os Pais Latinos viveram nos séculos IV e V e escreveram em latim. Os mais relevantes para nossa história da interpretação são:
Agostinho interpretava os sete dias da criação alegoricamente (como instantes), mas defendia a historicidade do relato. Ele é frequentemente associado ao conceito de que existem quatro níveis de sentido nas Escrituras:
"In vetere novum lateat, et in novo vetus pateat" (No Velho o Novo está subentendido e no Novo o Velho se torna patente).
Agostinho, Quaest. in Heptateuchum 2.73De entre os Pais Latinos, aquele cujas idéias e hermenêutica mais influenciou a Igreja Ocidental foi Agostinho. Infelizmente, foi somente um aspecto da sua hermenêutica que prevaleceu: o reconhecimento de que havia um sentido além do literal. Na Idade Média, a preocupação por sentidos além do literal dominou quase que completamente.
Uma lição que podemos aprender, especialmente com Jerônimo, é evitarmos que nossas crenças prediletas acabem por controlar nossa interpretação das Escrituras. Freqüentemente somos tentados a interpretar textos bíblicos de forma a concordarem com nosso pensamento. Nosso dever é nos assegurarmos de que esses pressupostos são somente aqueles exigidos pela própria Escritura.
Que possamos aprender com a história, valorizando o sentido literal e histórico das Escrituras, sem cair nos extremos do subjetivismo alegórico ou do literalismo rígido.