História da Interpretação Cristã

"Como os Pais da Igreja Entendiam a Bíblia"

Uma jornada histórica pelos métodos de interpretação bíblica adotados pelos primeiros cristãos, desde a Escola de Alexandria até a contribuição dos Pais Latinos como Agostinho e Jerônimo.

"No Velho o Novo está subentendido e no Novo o Velho se torna patente."
Agostinho, Quaest. in Heptateuchum 2.73

História da Interpretação Cristã da Bíblia

História da Interpretação Cristã

Introdução

Após a morte dos apóstolos, inicia-se a chamada era pós-apostólica, que vai do século I até o século IV, época dos grandes concílios ecumênicos. Neste período, a Igreja de Cristo era liderada por pastores e bispos conhecidos como "Pais da Igreja". Foi uma época de intensos debates teológicos sobre questões doutrinárias vitais para a sobrevivência da Igreja.

Os Pais da Igreja procuravam entender a verdade de Deus examinando as Escrituras. Debates vigorosos aconteceram quanto ao sentido exato das palavras dos apóstolos e dos profetas. Uma das questões hermenêuticas centrais era como a Igreja poderia interpretar as profecias, instituições, personagens e eventos do Antigo Testamento de forma a refletir a Cristo.

Duas Linhas de Interpretação:

Duas linhas nítidas e diferentes de interpretação surgem nessa época. A primeira, mais alegórica, está relacionada com a cidade de Alexandria. A outra, que surge depois em Antioquia em reação à primeira, é mais voltada para o sentido literal do texto bíblico. Neste estudo, abordaremos a interpretação alegórica de Alexandria e a reação literalista de Antioquia, concluindo com a contribuição dos Pais Latinos.

1. A Escola de Alexandria

1.1. A Interpretação no Período Pós-apostólico

No período pós-apostólico, a Igreja enfrentava desafios teológicos e precisava interpretar as Escrituras de forma a defender a fé cristã. A cidade de Alexandria, no Egito, tornou-se um centro de estudos teológicos.

1.2. Raízes Históricas: Heráclito e Platão

O sistema interpretativo de Alexandria tem suas raízes em dois filósofos gregos:

  • Heráclito (540-475 a.C.): Estabeleceu o conceito de huponóia (sentido mais profundo) para interpretar as obras de Homero. Ele sugeriu que o verdadeiro sentido das obras de Homero estava além das palavras, apontando para conceitos mais profundos.
  • Platão (427-347 a.C.): Formou o conceito de que o mundo em que vivemos é apenas uma representação do mundo perfeito das realidades imateriais, o "mundo das idéias". Conceitos e verdades espirituais são representados por alegorias.

1.3. Filo de Alexandria (20 a.C. - 50 d.C.)

Filo foi um judeu de Alexandria influenciado pelo platonismo. Ele dedicou sua vida a reconciliar o ensino de Moisés com as idéias de Platão, interpretando as Escrituras alegoricamente.

Exemplos da Interpretação de Filo:
  • Os quatro rios do Éden (Gênesis 2:10-14): Para Filo, os rios não eram rios literais, mas símbolos de virtudes. O rio Pisom (Gn 2:11) significava "mudança na boca" (eloquência prudente), o rio Tigre (Gn 2:14) significava temperança (resistência ao desejo), e o rio Eufrates significava justiça.
  • A Criação e Queda do Homem (Gênesis 2-3): Filo considerava a narrativa da criação da mulher da costela de Adão como fábula. Ele interpretou a serpente como o prazer, que é sempre uma ameaça para a mente (Adão).

1.4. A Escola Catequética de Alexandria

Quando o Evangelho alcançou Alexandria, uma forte comunidade floresceu. Líderes como Barnabé (c. 150 d.C.) e Pantenus (fundador da escola) adotaram a interpretação alegórica.

Barnabé e o Número 318 (Gênesis 14:14):

Barnabé interpretou o número 318 (os homens de Abraão) como uma profecia de Cristo. Ele argumentou que no alfabeto grego, o número 18 correspondia às letras ΙΗ (as duas primeiras letras de Jesus - ΙΗΣΟΥΣ) e o número 300 correspondia à letra Τ (a cruz). Para Barnabé, Deus havia revelado Jesus e a cruz neste número.

1.5. Orígenes (185-253 d.C.)

Orígenes é a figura mais importante da Escola de Alexandria. Ele foi um estudioso muito respeitado e provavelmente o mais erudito de sua época. Sua abordagem pode ser resumida em alguns pontos essenciais:

  • A melhor maneira de entender a Bíblia é através da perspectiva platônica.
  • A Bíblia contém segredos que somente a mente espiritual pode compreender.
  • três níveis de sentido nas Escrituras, correspondentes às três dimensões da personalidade humana: Carne (o sentido literal e óbvio), Alma (o sentido moral, para os que já progrediram na fé) e Espírito (a interpretação alegórica, para os espirituais).
Exemplos da Interpretação de Orígenes:
  • Rebeca no poço (Gn 24:15-17): Significa que devemos vir aos poços da Escritura para ali nos encontrarmos com Cristo.
  • As seis talhas de pedra (Jo 2:6): Simbolizam os sentidos moral e literal das Escrituras, e às vezes, o espiritual.

1.6. Conclusão e Implicações Práticas

Orígenes influenciou muitos Pais da Igreja. Embora tivesse um alto apreço pelas Escrituras e reconhecesse Cristo nas Escrituras do Antigo Testamento, defendeu um sistema de interpretação que diminuía o caráter histórico de algumas passagens e não dispunha de controles adequados contra o subjetivismo.

Lições de Alexandria para Hoje:

O tipo de interpretação "espiritualizante" que prevalece em muitas igrejas evangélicas hoje segue o mesmo caminho de Alexandria. Em termos práticos, Alexandria nos ensina a ter cautela com a idéia de que a verdade da Bíblia só pode ser alcançada por "espirituais" que tenham acesso privilegiado a um conhecimento que está além do sentido simples, claro e evidente das Escrituras.

2. A Escola de Antioquia

2.1. Introdução

A Escola de Antioquia, surgida na Síria, foi uma reação ao método alegórico de Alexandria. Ela se caracterizava por uma abordagem mais voltada para o sentido literal do texto bíblico, uma abordagem que podemos chamar de "gramático-histórica".

2.2. Fundador: Luciano de Samosata (240-312 d.C.)

Luciano foi um teólogo cristão que deu origem a uma tradição de estudos bíblicos conhecida pela erudição e conhecimento das línguas originais. Ele fundou em Antioquia uma escola de estudos bíblicos em oposição consciente ao método alegórico de Alexandria.

2.3. Principais Representantes

  • Deodoro de Tarso (m. 390 d.C.)
  • Teodoro de Mopsuéstia (m. 428 d.C.)
  • João Crisóstomo (m. 407 d.C.)
2.4. Princípios de Interpretação:
  • Sentido Literal: Procurar alcançar o sentido do texto através da busca da intenção do seu autor, considerando o contexto histórico em que foi escrito.
  • Conceito de Theoria: Um princípio usado para se descobrir um sentido mais que literal nas palavras dos profetas do Antigo Testamento, permanecendo-se fiel ao seu sentido literal. Era uma visão espiritual que permitia ao profeta ver o futuro através das circunstâncias presentes.
  • Tipologia: Reconheciam que havia tipologias (como Paulo fez em Gálatas 4), mas afirmavam a historicidade da narrativa veterotestamentária.
  • Intenção do Autor: Buscavam determinar a intenção do autor pela atenção cuidadosa ao sentido histórico das palavras em seu contexto original.
  • Cristo no Antigo Testamento: Eram contra descobertas arbitrárias de Cristo no Antigo Testamento, mas concordavam que Cristo estava presente nas Escrituras.

2.5. Exemplos de Interpretação

Teodoro de Mopsuéstia seguiu rigidamente os princípios de Antioquia. Para ele, uma passagem no Antigo Testamento só pode ser considerada messiânica se for usada como tal no Novo Testamento. Meras alusões não são suficientes.

2.6. Influência e Fracasso

Embora a escola de Antioquia tenha adotado uma leitura das Escrituras que pode ser chamada de "gramático-histórica", ela não prevaleceu na Igreja Cristã. Uma das razões foi que alguns líderes heréticos condenados pelos concílios ecumênicos eram seguidores do método de Antioquia (por exemplo, Nestório, condenado por suas visões sobre a natureza de Cristo).

Lições de Antioquia para Hoje:

A escola de Antioquia nos ensina duas coisas importantes: (1) O melhor caminho para evitar a subjetividade descontrolada de uma interpretação alegorista é nos atermos ao texto das Escrituras, ao seu sentido simples e evidente. (2) Precisamos cuidar para não cair no extremo de nos tornarmos tão presos à busca do que o texto significou no passado que esqueçamos de perguntar o que ele significa no presente.

3. Os Pais Latinos

3.1. Principais Figuras

Os Pais Latinos viveram nos séculos IV e V e escreveram em latim. Os mais relevantes para nossa história da interpretação são:

  • Tertuliano (155 - após 220 d.C.)
  • Jerônimo (c. 347-420 d.C.), que traduziu a Vulgata.
  • Agostinho (354-430 d.C.)
  • Ambrosiaster, autor desconhecido de um comentário sobre as cartas de Paulo.

3.2. Principais Características Hermenêuticas

  • Favoreciam a interpretação literal: Seguiam a linha de Antioquia. Tertuliano não alegorizou Gênesis 1-2, considerando a passagem como histórica. Jerônimo, após abandonar o método alegórico, fez uma tradução quase literal da Vulgata.
  • Davam atenção ao contexto histórico: Eram mais sensíveis ao contexto em que as Escrituras foram produzidas. Jerônimo declarou que o Antigo Testamento era um livro oriental, escrito numa língua e contexto orientais.
  • Às vezes alegorizavam o Antigo Testamento: Especialmente quando respondiam aos ataques dos judeus, alegorizavam algumas passagens para provar que Cristo era o Messias.
  • Passagens obscuras interpretadas à luz das mais claras: Em vez de alegorizar passagens difíceis, procuravam interpretá-las à luz das mais claras, seguindo a crença na unidade da Escritura.
  • Harmonia com a regra da fé da Igreja: Praticavam uma exegese "fechada", seguindo os dogmas dos concílios da época.

3.3. Agostinho e a "Quadriga"

Agostinho interpretava os sete dias da criação alegoricamente (como instantes), mas defendia a historicidade do relato. Ele é frequentemente associado ao conceito de que existem quatro níveis de sentido nas Escrituras:

  • Literal: O registro do que aconteceu (o fato).
  • Moral: Uma exortação quanto à conduta (o que fazer).
  • Alegórico: Uma doutrina a ser crida (o que crer).
  • Anagógico: Uma promessa a ser cumprida (o que esperar).

"In vetere novum lateat, et in novo vetus pateat" (No Velho o Novo está subentendido e no Novo o Velho se torna patente).

Agostinho, Quaest. in Heptateuchum 2.73

3.4. Conclusão e Implicações Práticas

De entre os Pais Latinos, aquele cujas idéias e hermenêutica mais influenciou a Igreja Ocidental foi Agostinho. Infelizmente, foi somente um aspecto da sua hermenêutica que prevaleceu: o reconhecimento de que havia um sentido além do literal. Na Idade Média, a preocupação por sentidos além do literal dominou quase que completamente.

Lições dos Pais Latinos para Hoje:

Uma lição que podemos aprender, especialmente com Jerônimo, é evitarmos que nossas crenças prediletas acabem por controlar nossa interpretação das Escrituras. Freqüentemente somos tentados a interpretar textos bíblicos de forma a concordarem com nosso pensamento. Nosso dever é nos assegurarmos de que esses pressupostos são somente aqueles exigidos pela própria Escritura.

Que possamos aprender com a história, valorizando o sentido literal e histórico das Escrituras, sem cair nos extremos do subjetivismo alegórico ou do literalismo rígido.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará."
— Salmo 23:1
1 / 10