Uma análise das mudanças dramáticas na hermenêutica durante o século XX, explorando as contribuições de teólogos como Barth e Bultmann, o método histórico-crítico, a autonomia do texto e o papel do leitor.
O campo da interpretação bíblica sofreu mudanças dramáticas durante o século XX, e grande parte dessas mudanças ocorreu devido a obras de eruditos como Karl Barth e Rudolf Bultmann e também ao desenvolvimento de outros campos de estudo, como a crítica literária, a filosofia e até mesmo a ciência.
Em grande medida, essas mudanças assinalaram uma reação ao método histórico-crítico que floresceu no século XIX. Esse método ressaltou de tal maneira o significado histórico da Bíblia que parecia excluir a sua relevância para o presente.
Karl Barth (1886-1968): Barth foi um dos teólogos mais influentes dos tempos modernos. Treinado na tradição liberal clássica, ele concluiu que seu treinamento era de pouco valor para a vida da igreja. A I Guerra Mundial esmagou as esperanças otimistas do liberalismo. Em 1919, Barth publicou um comentário sobre Romanos que causou ondas de choque, pois parecia ignorar o significado histórico do texto por causa de sua preocupação com a relevância para o leitor atual.
Bultmann argumentou que é impossível interpretar a Bíblia sem pressuposições. Ele adotou o existencialismo de Martin Heidegger. Seu método hermenêutico, conhecido como "demitologização", buscava traduzir os mitos bíblicos (como a criação e os milagres) para categorias filosóficas existenciais.
Embora Bultmann estivesse certo ao afirmar que a objetividade neutra é um mito, sua abordagem muitas vezes substituiu as pressuposições do texto pelas suas próprias.
O movimento da "Nova Hermenêutica" concentrou-se no conceito da compreensão, influenciado por Heidegger. Paralelamente, a "Nova Crítica" literária argumentava que o que um autor intencionava era menos importante do que o texto em si, como um artefato independente.
O filósofo alemão Hans-Georg Gadamer é frequentemente associado a uma abordagem relativista da interpretação. Ele argumentava que o "preconceito" não pode ser eliminado, mas é essencial para a conscientização e a compreensão. Sua intenção era reabilitar a tradição, que fornece as pressuposições que podem ser testadas ao serem aplicadas aos textos.
"O que mais preocupava Gadamer era refutar a alegação de que apenas através do método científico se pode chegar à verdade. O preconceito é essencial para a conscientização e a compreensão."
Muitos estudiosos bíblicos rejeitam o método histórico-crítico por considerá-lo incompatível com o caráter divino da Escritura. No entanto, existe uma confusão de terminologia. A abordagem que enfatiza a análise do texto em seu contexto original é fundamental e não deve ser descartada.
A exegese gramático-histórica concentra-se na análise detalhada do texto em conformidade com a linguagem original e a situação histórica. Um corolário importante é que devemos, antes de usar um texto, primeiro entender o que o autor original quis dizer.
Esta abordagem não deve ser confundida com o "método histórico-crítico" que, em sua forma mais radical, assume que a Bíblia é um livro como qualquer outro, sujeito a contradições e erros.
As controvérsias do século XX mostraram que a neutralidade teológica é uma ilusão. As pressuposições teológicas dos estudiosos influenciam suas decisões hermenêuticas. A ênfase atual no papel do leitor reflete essa realidade.
A Nova Crítica proclamou a autonomia do texto, liberando os críticos das restrições da intenção autoral. Um dos elementos mais controversos dessa ênfase é a tendência de minimizar as referências extraliterárias, especialmente históricas, das obras literárias.
Alguns críticos sugerem que "a nova crítica literária pode ser descrita como inerentemente não-histórica". A Bíblia é vista primariamente e finalmente como um objeto literário, e as perguntas históricas são vistas como basicamente irrelevantes.
Embora a Nova Crítica tenha nos ensinado a prestar mais atenção à textura literária da Bíblia, isso não deve solapar o elemento fundamental da Bíblia: o seu caráter essencialmente histórico.
Uma das características mais distintivas da hermenêutica contemporânea é a ênfase na subjetividade e na relatividade da interpretação. As raízes desta perspectiva podem ser encontradas na filosofia do filósofo Immanuel Kant e em desenvolvimentos posteriores na filosofia da ciência.
Thomas Kuhn, em seu estudo sobre as revoluções científicas, mostrou como mesmo os cientistas se apegam a estruturas teóricas e têm dificuldade em aceitar novas evidências que não se encaixam em suas estruturas. Isso demonstra que o observador nunca é completamente objetivo.
Assim, tanto nas ciências como nas humanidades, o intérprete traz consigo um conjunto de compromissos anteriores que determinam suas conclusões.
Alguns pensadores vão além e sugerem que o papel do leitor é virtualmente a única coisa que importa. Para os proponentes da "teoria da resposta do leitor", não existe um texto objetivo. Cada leitor gera um novo significado e cria um novo texto.
Embora os extremos da teoria da resposta do leitor sejam problemáticos, a ênfase na contextualização não deve ser rejeitada. A autoridade bíblica pode ser solapada ao se minimizar a realidade das mudanças históricas. O caráter absoluto das ordenanças de Deus não seria preservado se elas fossem tão gerais que pudessem ser aplicadas a todas as situações da mesma maneira.
Existe uma certa legitimidade em afirmar que o sentido de um texto não deve ser identificado com a intenção do autor de um modo exclusivo e absoluto. A "aplicação" de uma declaração paulina a problemas do século XX envolve uma decisão sobre o sentido do texto que certamente não fazia parte da intenção consciente do autor original.
No entanto, sugerir que a intenção autoral seja dispensável ou até mesmo secundária é um erro grave. Embora em certos casos a tarefa de identificar o que o autor bíblico queria dizer não seja a única maneira legítima de se proceder, tal tarefa sempre é legítima e com certeza deverá continuar a ser uma meta essencial.
"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade."
2 Timóteo 2:15O sentido da revelação está inseparavelmente ligado a Cristo, que veio para "explicar" ou "interpretar" o Pai. Para o cristão, a Bíblia é a Palavra de Deus, e os propósitos do Criador não podem ser frustrados pela fraqueza humana. A palavra de Deus não voltará vazia, mas prosperará naquilo para que foi designada.
Que possamos nos aproximar da Palavra de Deus com humildade, reconhecendo nossas pressuposições, mas também com confiança na obra do Espírito Santo que nos guia a toda a verdade.