Uma análise aprofundada sobre os princípios hermenêuticos de João Calvino e sua aplicação na interpretação bíblica, segundo a perspectiva do teólogo Moisés Silva.
O trabalho exegético de João Calvino, assim como o sistema teológico associado ao seu nome, pode ser de grande auxílio ao buscarmos desenvolver princípios e métodos de interpretação. Os comentários de Calvino são modelos de clareza e excelência. Além disso, em consonância com a doutrina da graça comum, o seu trabalho reflete uma importante apreciação da contribuição que os não-crentes podem dar à nossa compreensão da verdade.
A questão mais controvertida, porém, tem a ver com o relacionamento entre a teologia e a exegese. Enquanto que os estudiosos bíblicos tendem a ignorar ou até mesmo rejeitar o valor da teologia sistemática para o trabalho de interpretação, pode-se argumentar que os comprometimentos teológicos afetam inevitavelmente o processo de exegese e que tal influência é tanto essencial quanto desejável.
Entre as doutrinas distintivas do calvinismo, nenhuma é mais fundamental do que a ênfase na soberania de Deus. Uma apreciação desse ensino irá aumentar grandemente a nossa compreensão da narrativa bíblica. Ela irá oferecer-nos, através do conceito do pacto, um enfoque direcionado para o sentido da Escritura como um todo; irá inclusive ajudar-nos a ver como o próprio processo da interpretação é guiado pela sabedoria de um Deus amoroso e todo-poderoso.
Os comentários bíblicos tornaram Calvino merecidamente famoso. Numerosos eruditos, alguns dos quais estariam entre os menos inclinados a aceitar o calvinismo, têm enfatizado as extraordinárias virtudes de Calvino como expositor da Escritura.
Philip Schaff, o decano dos historiadores da igreja no século XIX, escreveu: "Calvino foi um gênio exegético de primeira grandeza. Os seus comentários nunca foram ultrapassados em originalidade, profundidade, perspicuidade, firmeza e valor permanente."
Entre as características da obra de Calvino como comentarista, nenhuma foi tão importante quanto o seu desejo de clareza e brevidade. Ele conscientemente evitou tratar de opiniões contrárias, porque "eu não tenho considerado nada mais importante do que a edificação da igreja." Calvino tentou escrever em um estilo que seguia o padrão estabelecido pelas próprias Escrituras, pois a Bíblia tem a sua própria eloqüência, que é a eloqüência da simplicidade.
O exemplo de Calvino deveria lembrar-nos de quais devem ser os nossos objetivos primordiais. Se tivermos em mente que não há motivo mais importante que a edificação da igreja – cuja base deve ser o próprio ensinamento de Deus e não a nossa imaginação – os nossos esforços irão permanecer voltados para o sentido histórico pretendido pelo autor bíblico.
Uma segunda característica do método de Calvino era a sua plena apreciação do conhecimento humano. Calvino era um filho do Renascimento e seguidor do humanismo associado a Erasmo. Antes de dedicar a sua vida ao ministério cristão, ele havia aperfeiçoado a sua aptidão nos melhores métodos de análise filológica e literária disponíveis no seu tempo.
Calvino expressou em suas Institutas: "Os homens que absorveram intensamente ou apenas provaram as artes liberais, com o auxílio das mesmas penetram muito mais profundamente nos segredos da sabedoria divina." Ele argumentou que devemos utilizar a assistência do conhecimento secular, pois se negligenciarmos a dádiva de Deus oferecida gratuitamente nessas artes, devemos sofrer o justo castigo da nossa indolência.
Este princípio tem implicações para a forma como os estudiosos evangélicos utilizam os métodos críticos. Muitas vezes, métodos críticos são adotados sem uma reflexão sobre suas implicações teológicas, o que pode solapar a integridade da fé evangélica. A abordagem de Calvino, porém, integrava o conhecimento humano com a fé, sem adotar ingenuamente ideias não-bíblicas.
A história do "Velho Princeton" e de Westminster exemplifica essa compreensão. Teólogos como Charles Hodge e B.B. Warfield estavam plenamente inteirados do progresso contemporâneo nas ciências e nos estudos críticos da Bíblia. Seu pensamento refletiu uma integração entre o chamado conhecimento secular e o ensinamento bíblico. Especificamente na área da erudição bíblica, J. Gresham Machen ilustra esse princípio, tendo estudado com destacados teólogos liberais da Alemanha e se tornado o principal opositor intelectual do modernismo, fazendo pleno uso da erudição bíblica associada com aquele movimento.
Machen não dominou a erudição liberal simplesmente para reunir munição intelectual contra a mesma. A seriedade com a qual ele encarava essa erudição está evidente em cada página de suas obras.
É impossível separar a interpretação bíblica da teologia sistemática. O relacionamento entre a exegese e a teologia sistemática tem sido uma das questões mais controvertidas na história da erudição bíblica.
O Argumento pela Interdependência:
"Um estudante que se aproxima de uma passagem bíblica com uma formação dispensacionalista, deve tentar compreender o texto supondo que o dispensacionalismo é correto. O propósito disso não é manipular o texto, mas tornar-nos conscientes do que todos fazemos de qualquer modo. O resultado deverá ser uma maior sensibilidade para com aquelas características do texto que não se encaixam em nossa estrutura interpretativa e assim uma maior disposição em modificar essa estrutura."
A teologia de Calvino é mais conhecida por sua ênfase na soberania divina. Essa doutrina é central para sua teologia. Na tradição calvinista, a soberania divina tem desempenhado um papel significativo.
"Se cremos que o Espírito de Deus verdadeiramente atua quando os cristãos examinam as Escrituras, e se a sua obra de iluminação vai além da mera identificação do sentido textual... os intérpretes de algum modo contribuem para o sentido da Bíblia a partir de seu próprio contexto."
Implicações da Soberania na Interpretação:
"Assim será a palavra que sair da minha boca; não voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo para que a designei."
Isaías 55:11Que possamos fazer toda a nossa interpretação bíblica com a certeza de que "aquele que começou boa obra em nós há de completá-la até ao dia de Cristo Jesus" (Filipenses 1:6).