Exégese Bíblica

"Descobrindo o Significado do Texto"

O caminho para compreender a Palavra de Deus através da análise cuidadosa e metódica do texto, buscando a intenção original do autor e aplicando-a à vida do crente.

"Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade."
2 Timóteo 2:15

Exégese Bíblica: Descobrindo o Significado do Texto

Exégese Bíblica

Prefácio

John Wesley disse uma vez: "Hei pensado que sou uma criatura de um dia, passando pela vida como uma flecha através do ar. Sou um espírito que procede de Deus, e regressando a Deus, só passo sobre o grande abismo, até que, uns momentos, portanto, não sou mais visto; caio numa eternidade imutável! Quero saber uma coisa: o caminho ao céu, como chegar seguro a essa costa feliz. Deus mesmo tem condescendido para ensinar o caminho; para este mesmo fim Ele veio do céu. Ele o tem escrito num livro. Oh! dê-me esse Livro a qualquer preço, dê-me o Livro de Deus!"

A Importância da Exégese:

Este Livro (a Bíblia) tem sido custoso. Mártires o escreveram e outros têm sofrido intensamente por sua fidelidade a ele. O livro tem sido preservado e transmitido através de árduos esforços. Tem-se traduzido para a língua nativa de milhares de povos, às vezes à custa da vida, por não mencionar tempo, energia e dinheiro.

Se um tio rico deixou sua enorme herança à pessoa nomeada em seu testamento, e tu soubesses que eras essa pessoa, estarias muito zeloso de ver que o tribunal interpretou a vontade de teu tio de uma maneira acorde com o significado que o autor queria dar. Ou se estivesses desesperadamente enfermo com uma doença terminal e escutas de um médico que sabe a cura e que escreveu um regime de saúde para ti, farias todo o que estivesse a teu alcance para entender o que o médico queria dizer em seu regime de saúde e para fazer tudo o que o regime pediu. Quanto mais devemos, ao igual que Wesley, considerar a Palavra de Deus como um tesouro digno de ser estudado!

1. Metas

Os Afetos: É uma coisa impressionante confessar que na Bíblia escutamos a Palavra de Deus. Não há esperança para o exegeta que nunca treme ante ela. Creio que a Bíblia é a Palavra de Deus. Portanto, devo definir o objetivo final da exégese bíblica como abarcar tanto o coração como a cabeça. As Escrituras têm por objetivo afetar nossos corações e mudar a maneira como nos sentimos acerca de Deus e de sua vontade.

"A exégese que tarde ou cedo não toque nossas emoções, e através de nós, as emoções de outros, é em última instância um fracasso porque não está comunicando o efeito que a Escritura deveria ter." (Romanos 15.4; João 15.11)

O Intelecto: A exegese é uma enzima intelectual. O evangelista crê que Deus se humilhou a Si mesmo, não só na encarnação de seu Filho, mas também na inspiração das Escrituras. O pesebre e a cruz não foram sensacionais. Tampouco o são a gramática nem a sintaxe. Mas assim é como Deus escolheu revelar-se a Si mesmo. Se Deus se humilhou a Si mesmo ao falar o linguajar humano, ai de nós se arrogantemente pretendemos ignorar a humanidade de Cristo e a gramática da Escritura!

Não há princípios distintivos de linguagem divina. Quando Deus falou através dos homens, usou o estilo e vocabulário de escritores bíblicos individuais. Portanto, o sentido de Deus na Escritura é só acessível através do idioma em particular dos portavozes humanos.

2. Procedimentos

Alcançar as metas imediatas da exégese simplesmente significa ler bem.

Cinco Passos para uma Boa Leitura:
  1. Encontrando um texto fiel: Não podemos começar a estudar a intenção de um autor até que não tenhamos um texto que se corresponda substancialmente com o que o autor em realidade escreveu. Isso significa que o criticismo textual é fundamental para toda exegese confiável.
  2. Vindo aos termos de um autor: O segundo passo é descobrir o que o autor quer dizer com suas palavras e frases. "Vindo aos termos" é o que fazemos quando descobrimos qual é o significado determinado de uma palavra ou frase. A única maneira de saber o significado de uma palavra é pelo seu contexto.
  3. Entendendo as proposições: As palavras começam a transmitir significados determinados só ao considerar-se como parte de uma proposição. Proposições são os elementos básicos de um texto. Para entender as proposições, devemos saber os rudimentos da gramática e a sintaxe.
  4. Relacionando as proposições umas com as outras: Tras do domínio da sintaxe, e vindo aos termos, podemos entender cada proposição. Mas só obtemos o significado preciso quando as relacionamos umas com as outras. Isso nos ajuda a capturar o fio do argumento. As relações entre as proposições caem dentro de dois grandes grupos: Relações Coordenadas e Relações Subordinadas.
  5. Meditando sobre a intenção do autor: O último procedimento é meditar sobre a intenção do autor bíblico, especialmente em relação com as coisas que ele e os outros escritores bíblicos têm dito em outros lugares. À medida que consideramos mais as inter-relações dessas coisas, as implicações começam a surgir.

Tipos de Relações Entre Proposições

A apostila apresenta um método visual (diagramas de "arcos") para representar estas relações.

Relações Coordenadas (de não apoio):
  • Séries: Cada proposição faz sua contribuição independente. Ex: "E o sol se escurecerá, e a lua não dará seu resplendor..." (Mateus 24:29).
  • Progressões: Cada proposição é um passo mais além rumo ao clímax. Ex: "E aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou..." (Romanos 8:30).
  • Alternativas: Cada proposição expressa uma possibilidade diferente. Ex: "E alguns asentiam ao que se dizia, mas outros não criam." (Atos 28:24).
Relações Subordinadas (de apoio):
  • Ação-Manera: Declaração de uma ação, seguida por uma declaração mais precisa que indica a maneira. Ex: "...fazendo bem, dando-nos chuvas do céu..." (Atos 14:17).
  • Comparações: A relação entre uma declaração e outra que a clarifica por seu parecido a algo. Ex: "Como me enviou o Pai, assim também eu vos envio." (João 20:21).
  • Negativo-Positivo: A relação entre duas alternativas, uma das quais é negada. Ex: "Por tanto, não sejais insensatos, sino entendidos de cuál sea la voluntad del Señor." (Efésios 5:17).
  • Idéia-Explicação: Uma declaração original e uma que aclara seu significado. Ex: "[Jacob] me ha suplantado estas dos veces... Me quitó mi primogenitura..." (Gênesis 27:36).
  • Pergunta-Resposta: Uma pergunta seguida de sua resposta. Ex: "Porque ¿qué dice la Escritura? Creyó Abraham a Dios..." (Romanos 4:3).
  • Fundamento (Cláusula principal-causal): Uma declaração e o argumento ou razão para a declaração. Ex: "Bienaventurados los pobres en espíritu, porque de ellos es el reino de los cielos." (Mateus 5:3).
  • Inferência (Cláusula principal-inferencial): A relação entre uma declaração e o argumento ou razão (a proposição de apoio antecede). Ex: "Mas el fin de todas las cosas se acerca; sed, pues, sobrios, y velad en oración." (1 Pedro 4:7).
  • Ação-Resultado: A relação entre uma ação e a consequência ou resultado. Ex: "Y de pronto se desató una gran tormenta en el mar, de modo que las olas cubrían la barca." (Mateus 8:24).
  • Ação-Propósito: A relação entre a ação e o destino que se tem em mente. Ex: "Humillaos, pues, bajo la poderosa mano de Dios, para que él os exalte cuando fuere tiempo." (1 Pedro 5:6).
  • Condicional: Uma ação em potencial. Ex: "Pero si sois guiados por el Espíritu, [entonces] no estáis bajo la ley." (Gálatas 5:18).
  • Temporais: A relação entre a proposição principal e a ocasião quando esta ocorre. Ex: "Cuando ayunéis, no seáis austeros..." (Mateus 6:16).
  • Localidade: O lugar onde a ação pode ser real. Ex: "Porque donde están dos o tres congregados en mi nombre, allí estoy yo en medio de ellos." (Mateus 18:20).
  • Concessivo: A relação entre a cláusula principal e a declaração contrária. Ex: "Y aunque era Hijo, por lo que padeció aprendió la obediencia." (Hebreus 5:8).

Ilustração: Romanos 12:1-2

O autor usa Romanos 12:1-2 para demonstrar como aplicar a análise de proposições.

Texto: "1. Assim que, irmãos, vos rogo por as misericórdias de Deus, que apresenteis vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é vosso culto racional. 2. Não vos conforméis a este século, mas transformai-vos pela renovação de vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus."


Análise Lógica (Níveis do Argumento):

  1. Nível 1 (Base): Seja mudado na forma como você pensa (Renovação da mente).
  2. Nível 2 (Propósito): Com o fim de que possa aprovar sinceramente a vontade de Deus (Discernir o que é bom).
  3. Nível 3 (Propósito Final): Com o fim de que possa honrar a Deus em suas atividades diárias (Oferecer o corpo como sacrifício vivo).

Interpretação Parafraseada: "Para que você possa honrar a Deus com seu corpo, você precisa aprovar a vontade de Deus. Para aprovar a vontade de Deus, você precisa ter uma mente renovada, deixando de pensar como este século e começando a pensar com novos valores."

O Papel da Meditação

O último procedimento na exégese bíblica é meditar sobre a intenção do autor bíblico, especialmente em relação com as coisas que ele e os outros escritores bíblicos têm dito em outros lugares. A medida que consideramos mais as inter-relações dessas coisas, as implicações começam a surgir, implicações que nos levam a profundizar mais e mais na realidade tal e qual o autor original o concebeu. Assim, pouco a pouco, chegamos a perceber a unidade da Bíblia.

"Mas, quando vier o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir."

João 16:13

Conclusão

Se é verdade, como diz Paulo, que sem uma nova mente ninguém pode aprovar o que é santo, e se é certo, como diz Jesus, que somos santificados através da Palavra de Deus (João 17:17), então é uma implicação necessária da Escritura que a nova mente do crente há de estar caracterizada por um intenso anelo de escutar a Palavra de Deus, ou seja, fazer boa exégese bíblica.

Que possamos manejar bem a palavra da verdade, não apenas com conhecimento, mas com amor e reverência ao Autor da Palavra.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará."
— Salmo 23:1
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