Uma introdução à mensagem teológica do Pentateuco, explorando a revelação de Deus através de Moisés e a fundação da fé israelita.
O Pentateuco, também conhecido como Torá ou os cinco primeiros livros da Bíblia, é o fundamento de toda a revelação divina. Este estudo busca apresentar sua mensagem teológica central, destacando a revelação de Deus, a fundação da fé israelita e a herança que aponta para Cristo.
Muitos cristãos tratam o Antigo Testamento como uma coleção de belas histórias, mas desconhecem seu profundo significado teológico. Esta apostila busca corrigir essa visão, apresentando o Pentateuco como o fundamento de toda a revelação divina.
Martin-achard, em sua obra "Como Ler o Antigo Testamento", apresenta quatro métodos de leitura: atomizada (foco em versículos isolados), histórica (foco nos grandes vultos), tipológica (busca por símbolos de Cristo) e teológica (compreensão do texto e sua mensagem). O método teológico, que exige dedicação e fidelidade ao texto, é o mais adequado para encontrar a mensagem central do Pentateuco.
Esta é a questão central. Como encontrar uma única mensagem em cinco livros tão diversos? A resposta está na natureza da revelação divina. O Dr. van Groningen, em sua obra "Revelação Messiânica no Velho Testamento", afirma que Gênesis 1-4 deve ser considerado como o relato que Deus faz de si mesmo, de suas palavras e intenções.
O Pentateuco nos revela o início da aliança de Deus. O Criador soberano criou a humanidade como membros da família real divina. O conceito do Reino de Deus nasce na relação do Eterno com Adão e sua mulher. Portanto, a mensagem central do Pentateuco é a revelação do Deus da Aliança.
Para compreender a mensagem do Pentateuco, precisamos nos despir de pensamentos meramente religiosos, doutrinários ou tradicionais. Somente através de Cristo, "tesouro do conhecimento e da sabedoria de Deus" (Colossenses 2.3), podemos vislumbrar algo da essência divina.
A palavra escrita (a Bíblia) é uma simbologia da realidade eterna. Cristo, a Palavra eterna, é o mesmo ontem, hoje e eternamente. O texto bíblico é importante, mas o espírito da palavra é Cristo, autor de toda obra criada. É pela fé, um "salto" em direção ao Eterno, que podemos compreender o Deus da criação e da história.
O primeiro versículo da Bíblia é a chave para crermos em Deus antes mesmo de suas obras serem manifestadas. O termo hebraico "b'reishit" (no princípio) contém uma riqueza teológica que transcende a simples marcação de um início temporal.
"No princípio, quando Deus criou os céus e a terra, a terra era..." - esta paráfrase de Westermann destaca que o texto bíblico não se preocupa com a ciência, mas com a teologia. Ele nos mostra um Deus que age de forma soberana, poderosa, gloriosa e amorosa. A fé em Deus antecede qualquer compreensão filosófica ou científica.
A tradição cristã ensina que o objetivo da criação é glorificar a Deus. Mas esta glória não é um elemento separado do Criador e da criatura. O homem foi criado para ser o reflexo da glória de Deus, para expressar essa glória através da vida que recebeu.
O homem é a glória, e nós somos o resplendor de sua glória. A vida concedida por Deus é uma dádiva, e nela reside a possibilidade de louvor e glória. A bênção divina sobre a criação (Gn 1.22, 28) e sobre o sábado (Gn 2.3) indica que Deus concedeu à criação e ao homem a autoridade para administrar e continuar a obra da vida.
"E Deus os abençoou e Deus lhes disse: Sede fecundos e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo animal que se move sobre a terra."
Gênesis 1:28A vida é antes da formação do homem e da mulher. Como Cristo afirmou: "Eu sou a vida". Infelizmente, Adão não entendeu a grandeza da revelação divina e tornou-se rebelde.
Com o pecado, o homem perdeu a autoridade de ministrar vida ao mundo. Deus, porém, fiel em seu amor, levantou um segundo homem – Jesus – em quem pôde se alegrar por sua obediência, mesmo nos momentos de profundo sofrimento.
Do ângulo teológico, Deus inicia sua ação diante do homem incapaz por meio de teofanias. O Antigo Testamento constitui uma teofania, uma manifestação de Deus que entra em relação com a humanidade. O Deus da Escritura não guarda invejosamente sua autonomia, ele lança pontes entre os homens e Ele; ele é o Deus da aliança.
Quando a Bíblia indica que Deus age para resgatar o homem de seu próprio pecado, em geral se pensa que Ele está oferecendo virar o rosto para não criticar ou condenar. O ensino bíblico vai muito além. É Deus que toma o primeiro passo em advertir o homem referente às conseqüências do seu pecado e oferecer em graça e misericórdia uma saída.
A soberania de Deus se revela supremamente na libertação de Israel do Egito. Este evento demonstra a fidelidade divina, a escolha e vocação de Moisés, e o poder de Deus sobre os ídolos egípcios. Todos esses acontecimentos visavam estreitar o relacionamento entre Deus e seu povo e fazê-los entender o projeto de redenção divina.
Toda a caminhada do êxodo foi um período pedagógico, no qual o Senhor quis mostrar a importância da comunhão em parceria. O Deus todo-poderoso andava no meio do povo como um pai de família, tratando de seus problemas e iluminando o caminho.
"E habitarei no meio dos filhos de Israel, e serei seu Deus."
Êxodo 30:45O livro de Deuteronômio é uma cartilha onde se rememora as palavras e os feitos de Deus e se ensina um novo povo como possuir a herança prometida aos antigos. A literatura deuteronômica está relacionada ao governo teocrático proposto no Éden, numa visão de Reino Eterno.
O Messias é chamado de "Emanuel" (Deus conosco), palavra que se cumpriu com o nascimento de Jesus. Assim como Moisés rememorou os feitos e palavras de Deus, Jesus, à semelhança de Moisés, rememorou, na perspectiva do espírito, as palavras e feitos do Pai Amado, desde a fundação do mundo.
A mensagem do Pentateuco, portanto, não é um conjunto de leis ou narrativas históricas desconexas. Ela é a revelação de um Deus Eterno, Todo-poderoso, terno e bondoso em seus feitos, e fiel em sua palavra. É a história de um Deus que age, age e agirá em nosso espírito, falando aos nossos corações como Pai amado e Deus de nossa salvação.
Que possamos conhecer a Deus não apenas com a mente, mas em um relacionamento pessoal e transformador.