Doutrina de Deus

"Teodicéia, Criação e Providência"

Uma análise sistemática sobre a identidade, os atributos e a obra de Deus, explorando Seus nomes, Sua soberania, e a profunda relação entre ciência e teologia.

"Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele para sempre. Amém."
Romanos 11:36

Doutrina de Deus: Teodicéia, Criação e Providência

Doutrina de Deus

Introdução e Panorama Geral

Esta apostila, preparada pelo Pr. Christopher B. Harbin, procura expor o leitor a um resumo de pesquisas referentes ao estudo das passagens bíblicas fundamentais na temática da teodicéia (estudo de Deus), bem como um tratamento teológico sistemático dos conceitos pertinentes.

Livros Textos Referenciados:
  • Millard J. Erickson – Introdução à Teologia Sistemática (páginas 99-204).
  • Timothy George – Teologia dos Reformadores (páginas 44-47, 100-102, 122-126, 200-233, 242-243, 307-311).
  • Wayne Grudem – Teologia Sistemática (páginas 105-333).

Pressupostos Teológicos

Todo esforço interpretativo bíblico deve estabelecer o ponto de partida do intérprete. Os pressupostos abaixo informam o processo deste estudo:

  • O enfoque bíblico é por natureza teológico e deve ser lido dentro deste enfoque.
  • O texto bíblico é a fonte de autoridade para fé e prática.
  • Um texto deve ser lido dentro do seu próprio contexto, procurando sua mensagem contextual.
  • Não se deve separar teologia do conceito de revelação, pois é somente pela auto-revelação de Deus que se pode conhecer a Deus.
  • A fé exige aceitar um compromisso com Deus, mesmo quando não se conhece plenamente todo aspecto das exigências do compromisso.
  • As perguntas essenciais a serem feitas ao texto bíblico são: "Quem é Deus?", "Quem sou eu?" e "O que Deus quer comigo?"

Nomes de Deus (YHWH, Elohim, Elyon)

Nunca ocorreu aos autores do Antigo Testamento provar a existência de Deus. Tal assunto teria sido absurdo. Os narradores bíblicos procuraram especificar qual, dentre os deuses conhecidos, foi Aquele que chamou a Abrão – o próprio Criador de todo o Universo.

YHWH (יהוה):

Reflete uma face mais pessoal de Deus, Deus em relacionamento com a humanidade. É Deus em sua imanência, ou atividade presente e relacional. O nome pode ser explicado como "Ele é" ou "Ele será" (Êxodo 3.14).

Elohim (אֱלֹהִים):

Designa Deus com enfoque em sua transcendência. É a face de Deus que se estende além de um relacionamento pessoal – o rei soberano do universo em toda a sua majestade, autoridade e poder. O termo pode ser visto como um "plural de intensidade" ou "de majestade".

Contexto Afro-Brasileiro:

No contexto do espiritismo afro-brasileiro, outros "deuses" (orixás e exús) equivalem aos deuses restritos a localidades bem restritas, conforme vistos nos conceitos hebraicos. YHWH é aquele único Deus que está por detrás, acima e além das concepções falhas de deuses entre todos os povos.

Conceito de "Ciência"

O povo hebreu não compartilhava a forma atual de conceitualizar e falar de ciência. O propósito central das narrativas bíblicas é teológico, não científico. "O Antigo Testamento nunca teve a pretensão de ensinar ciência."

Palavras de Calvino:

"Calvino entendeu que a Bíblia não era um livro fonte de ciência natural. O propósito das Escrituras consistia em revelar o que era proveitoso saber sobre Deus e sobre nós mesmos."

O que se percebe como conflito entre teologia e ciência tem mais a ver com a forma de expressar a verdade do que um conflito em si. A Bíblia foi escrita para induzir a humanidade a um relacionamento íntimo e pessoal com o único Deus.

Cosmologias Antigas

Para compreender plenamente o texto bíblico, é importante conhecer a cosmologia do povo hebreu. Eles percebiam o mundo com os mesmos conceitos "científicos" dos outros povos da época, mas faziam distinções teológicas importantes. O texto bíblico usa termos como "abismo", "firmamento" e "janelas dos céus", que refletem essa antiga perspectiva.

Conceito Hebraico:

A terra era concebida como um disco plano que flutuava em cima de água. O "abismo" referia-se às profundezas imensuráveis debaixo da terra. O firmamento era a barreira que separava as "águas acima" (chuva) do mundo habitado.

Conceito Egípcio e Babilônico:

Embora estruturalmente semelhantes ao hebraico, as cosmologias egípcia e babilônica interpretavam o mundo através das ações de um panteão de deuses em constante conflito. O relato bíblico de Gênesis, porém, apresenta um Deus soberano que age por vontade própria, sem necessidade de lutar contra outros deuses para impor ordem ao caos.

Seres Espirituais e Anjos

O Antigo Testamento aceita a existência de muitos seres além do homem, mas não concentra sua atenção neles. A Bíblia nega a existência de outros deuses (em comparação com a grandeza de YHWH) e não chega a dar muita orientação sobre detalhes específicos de demônios ou anjos, a não ser como portadores de mensagens (mal'ak).

Conceito Popular Atual vs. Veterotestamentário:

Muitos evangélicos hoje, na prática, tratam Satanás e seus demônios como adversários quase tão poderosos quanto Deus, focando mais no medo do que na proteção divina. No Antigo Testamento, porém, o mal e a oposição a Deus estão sempre subjugados sob a soberania inconteste de YHWH. O "Satanás" como figura principal é um conceito que se desenvolve no período intertestamentário e é clarificado no Novo Testamento.

Soberania e Predestinação

A doutrina da soberania de Deus é central na fé reformada. A apostila discute que a vontade de Deus não deve ser vista como um destino inescapável e cego, mas como a certeza de que Deus opera um propósito redentor para a humanidade.

Respostas à Predestinação:
  • Deus não é imutável no sentido de ser indiferente. Ele responde às ações humanas e sofre com o pecado humano.
  • A soberania de Deus é maior que o controle de todos os eventos; Deus pode integrar e reverter circunstâncias adversas em favor de Seu propósito (Romanos 8.28).
  • A escolha divina é um convite relacional. O chamado de Jesus "Segue-me" é uma oferta que pode ser rejeitada, mas que, quando aceita, transforma radicalmente a vida.

Oração: O Ato de Dependência

A oração não é uma fórmula mágica para receber o que queremos. É, sobretudo, um ato de dependência de um Deus que é relacional.

Na oração, não devemos nos concentrar na "técnica" de orar ou no "nome de Jesus" como uma palavra de poder mágica. O "nome de Jesus" é uma expressão que representa a autoridade, o caráter e a pessoa de Jesus. Orar "em nome de Jesus" significa orar em consonância com os propósitos de Deus, buscando a Sua vontade e não a nossa.

A oração é, portanto, um diálogo com Deus que requer confiança e submissão.

"Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á."

Mateus 7:7

Que possamos conhecer a Deus não apenas com a mente, mas em um relacionamento pessoal e transformador.

"O Senhor é o meu pastor; nada me faltará."
— Salmo 23:1
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